As transformações tecnológicas que vêm redesenhando o mercado de trabalho e ampliando a demanda por qualificação profissional estiveram no centro dos debates do segundo dia do 3º Encontro Nacional da Rede de Observatórios do Trabalho, realizado nesta terça-feira (16), no Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), em Brasília.
A coordenadora de projetos de pesquisa do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), Luciana Portilho, apresentou os resultados da pesquisa TIC Saúde 2025, que mostram o avanço da transformação digital no setor da saúde e seus impactos sobre o trabalho. Segundo o levantamento, o acesso à internet já é universal nos estabelecimentos de saúde, e 92% deles utilizam sistemas eletrônicos para registro de informações dos pacientes. A pesquisa também aponta que 18% dos estabelecimentos já adotam soluções de Inteligência Artificial (IA), percentual que chega a 31% nos hospitais com mais de 50 leitos. Entre as aplicações mais frequentes estão ferramentas de IA generativa, como ChatGPT e Gemini, além da automação de processos e do apoio à gestão clínica e administrativa.
Luciana destacou que a incorporação crescente de tecnologias digitais e de IA vem transformando os processos de trabalho e exigindo novas competências dos profissionais da saúde. Embora essas ferramentas contribuam para reduzir tarefas administrativas e apoiar a tomada de decisões, apenas 23% dos médicos e enfermeiros realizaram algum tipo de formação em Informática em Saúde. A falta de profissionais qualificados foi apontada por 47% dos estabelecimentos que ainda não utilizam IA como um dos principais obstáculos à adoção da tecnologia. Para a pesquisadora, a expansão da saúde digital exige investimentos em qualificação e requalificação profissional, além de abrir espaço para novas ocupações ligadas à tecnologia, à análise de dados, à segurança da informação e à gestão digital.
Na sequência, a coordenadora-geral de Monitoramento e Avaliação em Saúde da Secretaria de Informação e Saúde Digital do Ministério da Saúde, Alessandra Dahmer, apresentou os avanços da transformação digital no Sistema Único de Saúde (SUS) e seus impactos sobre o desenvolvimento econômico e a geração de empregos. Segundo ela, a digitalização do SUS tem ampliado o acesso aos serviços de saúde e criado oportunidades de trabalho em diferentes regiões do país.
Alessandra destacou que o Programa SUS Digital já conta com a adesão de 100% dos municípios brasileiros e tem promovido a integração dos sistemas de informação, a expansão da telessaúde e o fortalecimento da Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), que reúne mais de 4,7 bilhões de registros. Entre os resultados apresentados estão os mais de 6,3 milhões de procedimentos realizados pela Rede Brasileira de Telessaúde em 2025. O aplicativo Meu SUS Digital também ganhou relevância, acumulando mais de 69 milhões de downloads e 29 milhões de usuários ativos.
Segundo a coordenadora, a transformação digital da saúde aumenta a demanda por profissionais qualificados em áreas como tecnologia da informação, análise de dados, telessaúde, cibersegurança e inovação. Nesse contexto, os investimentos em infraestrutura digital e conectividade tornam-se estratégicos para ampliar o acesso aos serviços e impulsionar a geração de empregos de qualidade.
A subsecretária de Estatísticas e Estudos do Trabalho do MTE, Paula Montagner, ao falar sobre os novos investimentos e o emprego direto e indireto, destacou que a retomada dos investimentos, impulsionada por políticas como o Novo PAC, a Nova Indústria Brasil e o Plano de Transformação Ecológica, tem fortalecido o crescimento econômico e ampliado a geração de empregos no país. Segundo ela, os investimentos apoiados pelo BNDES alcançam setores estratégicos da economia e contribuíram para a manutenção de mais de 1,8 milhão de empregos em 2025. As estimativas apresentadas indicam ainda que os empreendimentos financiados pelo banco foram responsáveis pela geração de mais de 906 mil empregos diretos e indiretos.
Ao analisar os indicadores do mercado de trabalho, Paula Montagner ressaltou que o Brasil alcançou 102 milhões de pessoas ocupadas no primeiro trimestre de 2026, em uma força de trabalho de 108,5 milhões. A taxa de desocupação ficou em 6,1%, enquanto a informalidade recuou para 37,3%. Para a subsecretária, esses resultados refletem, em parte, a retomada dos investimentos produtivos e reforçam a importância de políticas voltadas à geração de empregos de qualidade.
A subsecretária de Estatísticas e Estudos do Trabalho do MTE também destacou a necessidade de monitorar os impactos territoriais dos investimentos para antecipar demandas por mão de obra e qualificação profissional. Segundo ela, compreender quais setores e ocupações tendem a crescer em cada região é fundamental para orientar políticas públicas de emprego, educação profissional e intermediação de mão de obra.
Entre as tendências observadas, a subsecretária chamou atenção para o crescimento das ocupações relacionadas à economia verde, à transição energética, à tecnologia e à inovação. Dados apresentados mostram que mais da metade dos empregos gerados nos empreendimentos de produção de energia está vinculada a fontes limpas, evidenciando o potencial dos investimentos sustentáveis para impulsionar o desenvolvimento econômico e a criação de novas oportunidades de trabalho.
Encerrando as atividades do dia, os participantes do 3º Encontro Nacional da Rede de Observatórios do Trabalho realizaram uma atividade prática de análise territorializada dos dados do BNDES, cruzando essas informações com indicadores do mercado de trabalho das regiões sob responsabilidade de cada observatório. A proposta foi aprofundar a compreensão dos impactos dos investimentos sobre o emprego e a qualificação profissional, além de discutir temas estratégicos para o futuro do trabalho, como a expansão dos empregos verdes, os efeitos da transformação tecnológica nas ocupações e as contribuições da Nova Indústria Brasil e do Novo PAC para o desenvolvimento econômico e laboral nos territórios.
Rede de Observatórios do Trabalho
A Rede de Observatórios do Trabalho reúne 35 observatórios distribuídos em 22 estados e 13 municípios com mais de 200 mil habitantes. A iniciativa fortalece a produção de estudos e análises sobre trabalho, emprego e renda e subsidia a atuação do Sistema Nacional de Emprego (Sine) e das Comissões Estaduais e Municipais de Trabalho.
O 3º Encontro Nacional da Rede promove a troca de experiências entre gestores públicos, pesquisadores e especialistas, contribuindo para o aprimoramento das políticas públicas voltadas ao mercado de trabalho. Durante o evento, também serão lançados o novo site do Observatório Nacional do Mercado de Trabalho e a 5ª edição da Revista Observatório do Trabalho Brasileiro, produzida pelo MTE em parceria com o DIEESE.
Segundo a subsecretária de Estatísticas e Estudos do Trabalho do MTE, Paula Montagner, os observatórios constituem uma política permanente do Ministério, desempenhando papel estratégico na análise de dados locais e na produção de conhecimento para apoiar a formulação de políticas públicas.
3º Encontro Nacional da Rede de Observatórios do Trabalho
O evento está sendo realizado no auditório do MTE, em Brasília (DF), com transmissão ao vivo pelo canal do MTE no YouTube. A programação teve início em 15 de junho e segue até o dia 17.
17 de junho (quarta-feira)
9h – Oficina sobre o Painel de Indicadores da Rede de Observatórios do Trabalho
11h – Oficina sobre captação de recursos para o bloco de assessoramento estatístico (emendas parlamentares)
13h – Encerramento