A produção de veículos leves no Brasil pode possuir um diferencial competitivo expressivo frente ao mercado global no contexto da transição para uma economia de baixo carbono. Um estudo inédito intitulado Do berço ao portão: Pegada de carbono da produção de veículos leves fabricados no Brasil, conduzido pelo Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (FGVces) em parceria com a Faculdade de Engenharia Mecânica da Universidade Estadual de Campinas (FEM/Unicamp), quantificou as emissões de gases de efeito estufa (GEE) da indústria automotiva nacional.
O levantamento, desenvolvido por meio Linha V – Biocombustíveis, Segurança e Propulsão Veicular, programa prioritário do Mover (Mobilidade Verde e Inovação), coordenado pela Fundação de Apoio da UFMG (Fundep), destaca-se por preencher uma lacuna relevante na literatura, que até então carecia de estudos desenvolvidos com base em dados primários e “tropicalizados”, isto é, adaptados para o contexto nacional, sobre as emissões dos processos que vão desde a extração de matérias-primas até a fabricação dos veículos.
“O Projeto “Do Berço ao Portão” marca um avanço inédito no Brasil ao reunir dados primários e inventários de ciclo de vida ajustados à realidade nacional, preenchendo uma lacuna importante sobre a produção automotiva no país. Ao tropicalizar fatores de emissão tanto da montagem dos veículos quanto dos principais materiais, o estudo oferece uma visão mais fiel da pegada de carbono dos veículos fabricados no Brasil, levando em conta a matriz elétrica majoritariamente renovável e as condições industriais brasileiras. Com isso, o projeto evita distorções comuns em análises baseadas apenas em bases internacionais, como GREET e ecoinvent, que nem sempre refletem as especificidades do contexto nacional”,afirma Juliana Picoli, pesquisadora e gestora de projetos do FGVces.
Para entender o impacto da fabricação nacional, a equipe de pesquisa analisou 12 veículos representativos do mercado brasileiro (hatch, sedan e SUV), abrangendo modelos a combustão (ICEV), híbridos (HEV), híbridos plug-in (PHEV) e 100% elétricos (BEV).
Os resultados mostram que a fase de extração, produção e processamento das matérias-primas, principalmente aço, alumínio e polímeros, responde por mais de 90% da pegada de carbono de um veículo antes mesmo de ele chegar às ruas. No caso de um veículo 100% elétrico, a fabricação da bateria torna-se o principal fator de impacto, respondendo por cerca de 46% a 47% da pegada de carbono dos veículos elétricos avaliados. Esse resultado está diretamente relacionado à elevada intensidade energética e às emissões associadas à produção de células de bateria, incluindo a extração e o processamento de materiais críticos.
O grande potencial competitivo brasileiro pode residir justamente na sua matriz elétrica, composta por quase 90% de fontes renováveis. Contudo, o estudo traz uma ressalva importante: a competitividade do Brasil representa uma vantagem potencial, dependente de diferentes condições a serem exercidas no contexto da produção nacional quando em comparação com a de outros países
O estudo simulou diversos cenários e sensibilidades (como porcentagens de perdas de materiais e variações na matriz elétrica) para medir esse impacto. Dentre os cenários avaliados, a comparação de uma cadeia 100% nacional com uma 100% importada, mostrou que o veículo a combustão, quando fabricado com materiais exclusivamente nacionais, pode chegar a ter uma emissão cerca de 32% menor. Essa redução é explicada principalmente pela utilização da matriz elétrica brasileira – responsável por reduzir emissões dos insumos utilizados na fabricação de veículos – especialmente alumínio, bateria e etapa de fabricação dos veículos. Além da nacionalização, as análises de sensibilidade exploraram cenários como diferentes taxas de perdas de materiais e a maximização de conteúdo reciclado na composição de materiais estruturais do veículo, comprovando que essas rotas alternativas de produção têm um elevado potencial de mitigação das emissões de GEE.
“Para analisar estes aspectos, a equipe do projeto desenvolveu ferramentas específicas dedicadas a diferentes materiais e cadeias de suprimento, permitindo a investigação de diferentes cenários de produção. Estas ferramentas têm o potencial de serem utilizadas em outros contextos, de modo a explorar mais estratégias de descarbonização”, ressalta Joaquim Seabra, Professor do Departamento de Energia da FEM/Unicamp.
O papel da indústria na descarbonização
A partir dessas simulações, o estudo aponta caminhos para a redução de emissões na etapa de produção do veículo. Em geral, os resultados indicam que as estratégias mais eficazes para a redução da pegada de carbono do berço ao portão dos veículos leves no Brasil estão associadas à escolha de materiais, às rotas tecnológicas de produção e origem dos materiais, ao aumento do uso de materiais reciclados e à melhoria da eficiência material ao longo da cadeia de suprimentos automotiva.
Ao fornecer inventários e fatores de emissão representativos da realidade brasileira, o estudo oferece insumo para decisões técnicas, empresariais e regulatórias, apoiando a transição para uma indústria automotiva nacional mais competitiva e de menor intensidade de carbono.
Os dados do projeto também contribuem com o debate sobre a eletrificação. Embora os veículos elétricos não emitam GEE durante seu uso, eles são mais intensivos em carbono em comparação com carros a combustão durante a fabricação, especialmente devido às baterias. Porém, a pesquisa também mostrou que existe um ponto de break-even (empate), ou seja, uma quilometragem a partir da qual o carro elétrico “paga” a sua dívida de carbono, compensando a maior pegada de carbono associada à fase de produção (do berço-ao-portão) durante o uso.
Outro aspecto interessante revelado pelo estudo é o fato de que um veículo flex nacional, abastecido 100% com etanol, pode ter, quando considerada a fase de uso, uma pegada de carbono total inferior à de tecnologias eletrificadas importadas, dependendo de como a energia elétrica para recarga é gerada e de como o etanol é produzido.
“O projeto da Linha V do programa Mover demonstra, de forma consistente, um grande êxito alcançado a partir da articulação entre academia, setor produtivo e políticas públicas. Trata-se de uma iniciativa que responde diretamente a uma demanda estratégica do setor automotivo, ao oferecer dados robustos e adaptados à realidade brasileira, fundamentais para a tomada de decisão e para o avanço da descarbonização da indústria. Além disso, a iniciativa irá possibilitar, com dados e evidências, a continuidade de políticas públicas e estratégias que ampliam a sustentabilidade na cadeia automotiva, contribuindo para posicionar o Brasil, cada vez mais, como uma referência em busca de uma mobilidade de baixo carbono”, afirma Janaína Silva, analista de programas da Fundep.
Sobre o projeto e próximos passos
A pesquisa teve 36 meses de duração e mobilizou uma equipe de 26 pesquisadores, contando com a colaboração de 15 empresas parceiras e 11 associações setoriais. A metodologia empregada foi a Avaliação de Ciclo de Vida (ACV), guiada por três grandes objetivos: (1) quantificar os impactos de mudanças climáticas desde a extração da matéria-prima até a fabricação dos veículos nas montadoras (do berço-ao-portão da fábrica); (2) mapear as principais fontes de emissões e oportunidades de redução; e (3) identificar as principais diferenças em relação à produção de veículos em outros países, realizando um benchmarking internacional.
Esse vasto levantamento, que gerou centenas de inventários adaptados para o Brasil, pode fornecer subsídios técnicos para a formulação de políticas públicas, como as regulamentações do Programa MOVER. O próximo passo do projeto será o lançamento da ferramenta MOVER-SE, um simulador online que permitirá à própria indústria automotiva e ao governo calcular e comparar a pegada de carbono dos veículos leves com base na realidade produtiva do país.