(Reprodução Shutterstock/alterada via IA)
Acordos comerciais passaram a incorporar compromissos ambientais em ritmo acelerado nas últimas três décadas, mas as métricas disponíveis até hoje frequentemente tratavam cláusulas florestais e cláusulas ambientais genéricas como se tivessem o mesmo peso. Pesquisa publicada na World Development, periódico de referência em desenvolvimento internacional, propõe uma forma de separar essas dimensões e tornar comparável o que os países assinam quando afirmam proteger florestas via comércio. O Forest Provisions Depth Index (FPDI) foi desenvolvido por Rodrigo Fagundes Cezar, professor da Escola de Relações Internacionais da FGV (FGV RI), em colaboração com Michelle Márcia Viana Martins, da Universidade Federal de Viçosa, e Alan Leal, da Escola de Economia de São Paulo (FGV EESP).
O índice é anual e varia de 0 a 100, com valores mais altos indicando compromissos florestais mais profundos. A cobertura é ampla e contempla 778 acordos preferenciais envolvendo 213 países entre 1947 e 2021. O conteúdo dos tratados é organizado em três dimensões: cláusulas florestais explícitas, capacidade de implementação e cumprimento, e ancoragem em princípios e cooperação ambiental. O desenho do índice aplica um desconto quando o acordo não contém cláusulas florestais específicas, de modo que uma arquitetura institucional ambiental ampla, por si só, não gera pontuação elevada de profundidade florestal. Negociar um capítulo ambiental sem mencionar florestas deixa de ser confundido com compromisso florestal substantivo.
O FPDI mostra ampla variação entre países, dependendo de como os acordos conectam mecanismos de monitoramento, solução de controvérsias e cooperação. A União Europeia, tratada como bloco, lidera com média de 80,3 pontos, seguida por Timor-Leste (66,7), Guiné-Bissau (61,4) e Costa do Marfim (60,5), países cujos portfólios são dominados por acordos com a UE que replicam cláusulas de conservação florestal.
A análise dos dados indica que países com maior capacidade de governança apresentam compromissos florestais mais profundos, e essa associação é mais forte em economias em desenvolvimento. Países que importam mais produtos de madeira também tendem a negociar acordos com cláusulas florestais mais densas, padrão compatível com demandas por legalidade e rastreabilidade nas relações com parceiros exportadores, em diálogo com regimes como o EUDR. Por outro lado, países sob pressão mais intensa de desmatamento e expansão da fronteira agrícola tendem a apresentar compromissos florestais mais rasos, como ocorre com o Brasil. O resultado é contraintuitivo e sugere que os acordos comerciais tendem a aprofundar menos a questão florestal justamente nos contextos em que compromissos mais robustos seriam mais necessários.
Os resultados têm implicações para a agenda de política comercial e climática. Acumular capítulos ambientais genéricos não substitui compromisso florestal explícito, e ambição florestal tende a se traduzir em prática apenas quando acompanhada de capacidade institucional doméstica para monitorar e implementar os compromissos assumidos.
Para negociadores, o FPDI funciona como um termômetro comparativo de portfólio, permitindo identificar onde há margem para aprofundar o desenho dos tratados e onde a arquitetura institucional ainda permanece descolada do conteúdo florestal. Para a sociedade civil e investidores, o índice oferece uma referência pública e comparável para acompanhar o que cada país assinou e o que efetivamente permanece como compromisso florestal operacional.
A pesquisa integra o projeto “Making Autonomous Sustainable Trade Regulations Work for Everyone”, parceria entre a FGV RI e o Geneva Graduate Institute, com apoio da Swiss Network for International Studies (SNIS). O mesmo projeto sediou, em São Paulo, em outubro de 2025, a Consulta Pré-COP30 sobre comércio sustentável, reunindo representantes da FAO, Banco Interamericano de Desenvolvimento, WWF-Brasil, Embrapa, ABIEC, Pacto Global da ONU, Imaflora, Instituto Clima e Sociedade e Amigos da Terra.
O artigo completo está em acesso aberto na World Development. A base de dados FPDI e os scripts de replicação serão depositados em repositório público.